Por: Fernando Portela Câmara

É comum ouvir-se dizer ou ler em algum livro sobre história da
psicanálise, que Freud era um mau hipnotista e por esta razão foi levado
a criar a psicanálise, ou que condenava a hipnose por não curar
verdadeiramente os sintomas, levando a recaídas ou deslocamentos, e
outras suposições jamais testadas ou provadas. Toda esta ficção
desaparece ao lermos seus escritos sobre hipnose e o trabalho que o
levou, junto com Breuer, a estabelecer o modelo psicodinâmico para a
histeria [4]. Trata-se aqui da psicanálise enquanto uma proposta
terapêutica, nada tendo a ver com o Freudismo.
“Em questões científicas, é sempre a experiência e nunca a
autoridade, que dá o veredicto final, seja contra ou a favor” [12]. Com
estas palavras Freud defendia a hipnose daqueles que a condenavam sem
nunca te-la experimentado na clínica. Não se podia condenar a hipnose
sem antes saber ser ela uma prática que envolvia muitos fatores pessoais
além da técnica: se o médico é recebido como “um salvador em hora de
necessidade, ele tem mais possibilidade de influir positivamente no
paciente, mas se e recebido com má vontade, não poderá contar muito com a
confiança do paciente” [15]. Também “um tratamento hipnótico demorado
tende a fracassar porque à medida que o tempo passa e o paciente não vê
resultados, suas expectativas diminuem assim como a do médico” [14], e
finalmente, “por razões que escapam ao seu controle, [o médico]
encontrará sempre alguns pacientes que não conseguirá hipnotizar nas
suas condições de experiência, enquanto outro médico poderá consegui-lo
sem dificuldade” [14].
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Freud era um hipnotista bem sucedido em sua época e um entusiasmado
defensor deste método. No seu artigo sobre a hipnose [14] denota
conhecer intimamente todos os segredos desta arte e seu alcance
terapêutico. Ele concordava com Bernheim ao afirmar que a hipnose curava
tanto quanto os demais métodos da medicina (medicamentos, fisioterapia,
eletroterapia, etc), e que a cura era permanente quando o que se
tratava eram efeitos residuais de um processo patológico já concluído
[14]. Portanto, o que os psicanalistas modernos afirmam como sendo a
consideração de Freud sobre a hipnose, é apenas mais um equívoco
adicionado à sua biografia. Ele sabia que os resultados médicos da
hipnose dependem mais das características da pessoa do doente do que de
sua doença [13, 14], e que não havia meios precisos de distinguir tais
indivíduos a não ser submetendo-os experimentalmente à hipnose. Também
chamava a atenção para o fato de que os pacientes histéricos eram
altamente hipnotizáveis, enquanto os neurastênicos dificilmente, e os
psicóticos e mentalmente retardados não respondiam à hipnose [5, 6, 8,
9, 11].
A hipnose foi a via que permitiu a Freud experimentar a realidade do
inconsciente, o fenômenos da dissociação. “Todo aquele que já tenha
acumulado algumas experiências pessoais com o hipnotismo há de se
lembrar da impressão que lhe causou o fato de, pela primeira vez, poder
exercer sobre a vida psíquica de uma pessoa aquilo que até então tinha
sido uma influência inimaginável, e de poder efetuar com a mente humana
uma experiência que normalmente só é possível faze-lo no organismo de um
animal… Se o trabalho de Libeault e seus discípulos (Bernheim, Beaunis,
Ligeois) não tivesse produzido nada além do conhecimento desses
fenómenos notáveis (do hipnotismo), esse trabalho, mesmo excetuando
qualquer alcance prático, já teria assegurado um lugar de destaque entre
as descobertas científicas deste século” [13].
Freud criticava os que achavam que a hipnose feria o livre arbítrio
das pessoas: “toda educação social dos seres humanos se baseia numa
expressão de ideias e motivações impróprias e na sua substituição por
outras melhores” (13). Com este argumento, situava o valor da sugestão
hipnótica como forma de produzir “o recalque de um sintoma da atenção do
paciente pela influência das palavras e poder da personalidade” (13),
salientando que isto visava apenas recalcar um sintoma, e não a vida do
paciente. Ele com isso contra-argumentava a polêmica do livre arbítrio,
criticando a psiquiatria da época: “os psiquiatras estão habituados a
sufocar a atividade mental de livre arbítrio de seus pacientes com
grandes doses de brometo, morfina, e hidrato de cloral” (13). Ele negava
que a hipnose produzisse o enfraquecimento do sistema nervoso das
pessoas, crença comum na época, e tinha uma rixa com os hipnotizadores
leigos, o que o levava enfatizar a distinção entre “indução do estado
hipnótico”, que qualquer pessoa pode fazer, com “tratamento através do
estado hipnótico”, que somente um psicoterapeuta experiente pode usar.
“Hipnotizar não e uma especialidade médica, já que qualquer pessoa do
povo pratica (esta arte)” e arrematava a frase citando Bérillon no
original: “on
ne s’improvise pas plus médicin hypnotiseur qu’on ne s’improvise oculiste” [13].
Ele não concordava com Bernheim de que a hipnose era uma condição
puramente psicológica ou sugestiva, corrente de pensamento conhecida
como “Escola de Nancy”, e que antagonizva frontalmente a teoria da
“Escola de La Salpètriere”, liderada por Charcot [8]. Freud concordava,
como neurologista, que a hipnose também era fisiológica, e citava casos
de hipnose espontânea durante exames oftalmoscópicos,
otorrinolaringológicos, ruídos bruscos e violentos, etc. Discípulo de
Charcot e Bernheim, ele procurava unir as duas escolas inimigas, pois,
sabia por experiência, que ambas tinham razão, embora parcialmente [8].
Mas ele era mais inclinado às teses de Charcot, tendendo a aceitar a
hipnose mais como um fenômeno fisiológico decorrente de uma
sensibilidade nervosa especial a estímulos sensoriais ditos
“hipnogênicos” [7]. Para ele, a teoria da sugestão de Bernheim nada
explicava, e não se embasava em nenhum mecanismo conhecido a não ser em
sua sua própria definição. Lièbeault, Bernheim, Wetterstrand, e outros
grandes hipnotistas da época tinham sucesso com a sugestão
principalmente porque só hipnotizavam em grupos (o que favorece a
hipnose pela identificação inconsciente ou “imitação”), fato que
Bernheim mais tarde também reconheceria [2]. O sucesso destes
hipnotistas dependia em grande parte da atmosfera sugestiva dos seus
ambientes de tratamento, do
millieu, do estado receptivo dos pacientes e, finalmente, do prestígio que o hipnotista gozava entre a sua clientela [13].
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Considerando sempre que a reação à hipnose é uma característica
individual, fato que Bernheim iria concordar posteriormente [2]. Freud
indicava a hipnose nas seguintes situações, que continuam sendo válidas
até hoje: 1. Em geral, evita-se a hipnose em doenças exclusivamente
orgânicas, usando este método preferencialmente nas doenças nervosas de
natureza funcional, nos distúrbios psíquicos não psicóticos e na
dependência de substâncias tóxicas; 2. Entretanto, numerosos sintomas de
origem orgânica são acessíveis à hipnose; 3. A hipnose pode servir para
diagnóstico diferencial entre um fenômeno histérico e um processo
neurológico lesional [14]. Ele acrescenta, ainda, que a hipnose tinha
uma vantagem no tratamento das neuroses, já que permitia que o paciente
falasse livremente sobre os seus problemas e recordasse fatos associados
a eles, ao mesmo tempo que o médico lhe infundia sugestões de calma e
tranqüilidade [14].
Em sua clínica, ele aplicava o tratamento hipnótico nas chamadas
neuroses histéricas, reconhecendo não ter o mesmo sucesso nas neurose de
angústia e neurastenias, às quais atribuía, respectivamente, como
fatores causais, a frustração sexual e a masturbação excessiva (neste
ponto Freud não era diferente dos sexólogos da sua época). Somente o
histérico sofria de memórias reprimidas: “0 histérico entra em hipnose
profunda e, neste estado, pode recordar aquilo que está fora
[dissociado] da sua consciência ou seja, a circunstância onde pela
primeira vez apareceu o sintoma. Esta única recordação cura o sintoma”
[13]. Freud e Breuer defendiam então que o histérico so-fria de
reminiscências, e que estas reminiscências eram o elemento traumático na
histeria [4]. A preferencia de Freud pela rememoração, que ele achava
mais eficaz que a sugestão, levou-o a abandonar gradualmente a terapia
sugestiva, à medida que começa a perceber a dinâmica do recalque na
formação do inconsciente da histeria e a articulação dos sintomas a
partir desta formação. Mais tarde ele constatou que as reminiscéncias
traumáticas, frutos da realidade psíquica do paciente e não da realidade
em si, podiam ser recordados sem hipnose, através da associação livre
dos pensamentos. O paciente relaxava distendido sobre um divã, Freud
pousava a mão na sua testa e sugeria relaxamento e afrouxamento dos
pensamentos, e em seguida pedindo-lhe para relatar suas problemas ao
mesmo tempo que deixava idéias fluírem espontaneamente à medida que
falava, pedindo para relatar estas idéias sem censura ou julgamento,
mesmo as que julgasse sem importância. Chamou este método de “associação
de idéias”, método, aliás, popular na época entre artistas e
escritores. Entretanto, o que vemos aí nada mais é que uma indução de
hipnose, sem preocupação de transe profundo, mas uma forma de hipnose
que só décadas mais tarde seria conhecida [5, 8]. Freud, ainda preso à
idéia de que hipnose era uma estado caracterizado por transe profundo e
sintomas clássicos deste estado, talvez não tenha percebido que apenas
ampliara o conceito deste estado [10], e a sua influência sugestiva, sua
presença e seu entorno, permanecia como ingrediente secreto da sua
terapia [19].
A psicanálise terapêutica era, portanto, uma forma de hipnose em que a
sugestão havia sido abandonada definitivamente e substituída pela livre
associação de idéias, mas o influxo sugestivo poderoso do hábil
hipnotizador permanecia [20]. A hipnose ortodoxa, método de intervenção
autoritária e ativa por parte do médico, cedia lugar a uma terapia onde o
paciente era a parte ativa, e o médico apenas uma espécie de guia,
passivo. Freud criou a psicoterapia ativa, mas a hipnose continuava,
agora como transe superficial, cujo poder terapêutico é tremendo [5, 8,
9, 11]
A arte de um mestre
Freud hipnotizava pela fixação do olhar, e se o paciente não
respondesse a este método após cerca de um minuto, ele acrescentava
sugestões de relaxamento, sono e repouso. Esta é basicamente a técnica
de Braid, o fundador da hipnose moderna [3]. Se o paciente não reagisse a
este método, ele partia para outros estratagemas, pois, para se
hipnotizar uma pessoa deve-se levá-1o a “fixar sua atenção numa dada
sensação persistente e conduzi-lo ao estado de adormecimento por uma
seqüência de associações de pensamentos” [14], tais como pálpebras
pesadas, vontade de relaxar, distender, etc. Ele recomendava ser breve e
seguro ao se fazer um desafio (ex.: impossibilidade de abrir os olhos)
durante a indução hipnótica, procurando não dar tempo ao sujeito para
testar o que lhe é sugerido. Para despertar o paciente, implantava a
sugestão, já na primeira sessão, que assegurava ao paciente que nas
próximas sessões despertará sempre bem disposto, calmo e sem dores de
cabeça [14]. Para Freud, o único perigo da hipnose era o de neuróticos
graves que após serem hipnotizados, poderiam repetir espontaneamente a
hipnose e provocar algum acidente (vemos aqui, mais uma vez a influência
de Charcot). Para evitar isto, o médico deve proibir-lhes de entrar em
estado hipnótico sem o seu conhecimento [14].
Freud recomendava não obrigar o paciente a aceitar a hipnose, pois,
sabia como a resistência do paciente ao terapeuta podia malograr todos
os esforços dirigidos ao seu tratamento. Se o sujeito teme a hipnose,
isto produzirá efeitos desagradáveis decorrentes da angústia e do pânico
em sentir que sua vontade está sendo dominada; se ele resiste, deve-se
abandonar as tentativas de hipnotizá-lo até que ele aceite a idéia de
ser hipnotizado; e se for o caso do paciente declarar não acreditar na
hipnose, deve-se pedir-lhe a colaboração e explica-lhe que a hipnose não
depende de crença [14]. Freud observa que as pessoas que desejam muito
serem hipnotizadas são difíceis de sê-lo, e isto discorda da opinião
popular segundo a qual a “fé” é
o segredo da hipnose.
[14] Finalmente, ele opina que não há vantagem em começar um tratamento
médico pela hipnose, sendo mais prudente conquistar a confiança do
paciente e deixar que sua desconfiança e criticismo se neutralizem,
antes de propor-lhe a hipnose [14]. Estas e outras observações mostra
como Freud tinha domínio sobre a hipnose, conhecendo profundamente suas
estratégias e limitações, consequentemente, emoldurando uma prática
criteriosa e bem sucedida.
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Freud não achava necessário avaliar o grau de hipnose do paciente,
senão apenas avaliar se ele atingiu o estado hipnótico, usando provas de
catalepsia, flexibili-dade, etc. Entretanto, reconhecia que “…não há
procedimento conhecido que possa levar o sujeito a este estado, pois,
isto depende do paciente, e não do médico” [14]. Em função disso, o
médico deveria descartar a terapia hipnótica se “…após três ou seis
sessões não se consegue resultados somáticos (catalepsia, flexibilidade,
anestesia) que comprovem a hipnose…”
[14]. Entretanto,
o médico não se deve deixar levar pelas aparências, pois, “mesmo que o
paciente reaja e diga que não está hipnotizado, verifique se mesmo assim
ele esta cooperando, e se isto estiver ocorrendo, então ele ainda esta
sob a influência sugestiva do médico” (14). Por esta razão, o hipnotista
não deve se deixar intimidar pelas reações do paciente, nem interpretar
isto como resistência, mas ignorar a reação e prosseguir no seu
trabalho se o paciente ainda estiver cooperando, ou seja, dispondo-se a
seguir suas instruções mesmo que aparentemente contrariado.
Ele, contudo, acreditava que o transe sonambúlico assegurava êxito na
sugestão. Para caracterizar o transe sonambúlico, era suficiente
verificar se o paciente, ao despertar, retinha ou não a memória do que
lhe foi dito durante a hipnose A constatação de amnésia pós-hipnótica
era para ele suficiente para caracterizar o transe sonambúlico. As
provas de catalepsia, flexibilidade e anestesia, embora comprovassem o
estado hipnótico, não certificavam a sugestionabilidade do paciente.
Assim, na concepção da época, se o paciente apresentasse amnésia
pós-hipnótica, isto assinalava uma maior probabilidade de êxito na
sugestão [8]. Ele abandonaria este radicalismo ao constatar que o
sucesso da terapia hipnótica não estava ligada à profundidade do transe
[Camara].
O interesse de Freud no transe sonambúlico devia-se também aos
fenômenos psíquicos e neurológicos que serviam para a investigação
experimental do chamado “estado segundo”, expressão popularizada por
Azam [1] para designar as personalidade secundária na época comumente
observada nos estados histéricos, ou artificialmente produzidas no
sonambulismo hipnótico, que Freud e Breuer consideravam uma forma de
expressão da mente inconsciente. Freud costumava usar este estado para
perguntar ao paciente sobre a origem dos seus sinto-mas e o era preciso
fazer para obter a cura. Ora, Freud apenas repetia os experimentos do
marquês de Puységur [18] numa dimensão , que em 1784 descobrira o transe
sonambúlico e iniciou as observações que culminariam com a formação da
doutrina do hipnotismo de James Braid [3], em 1841. Freud não era
simpático à sugestão, e procurava elucidar os reais mecanismos psíquicos
responsáveis pelos sintomas, os quais, uma vez descobertos, podiam ser
desmontados. O tratamento sugestivo era incerto e não se tinha indicação
alguma se iria funcionar ou não, o que ameaçava a reputação do médico.
Por esta razão ele aconselhava que se tentasse a terapia hipnótica por
um período breve, pois, se o tratamento for demorado ele tende a falhar
porque diminui as expectativas do paciente em ser curado.
Em sua prática hipnótica, Freud usava a terapia por sugestão ou a
terapia por regressão. Se o paciente não fazia um transe sonambúlico,
ele optava por sugestões terapêuticas e calmantes, seja por via verbal
direta ou indireta, e tinha por método mostrar ao paciente, ainda em
hipnose, como os seus sintomas desapareciam, esperando com isso
convencê-lo que seu problema era unicamente nervoso. Ele tocava a região
afetada com a mão, e condicionava o alívio ao seu toque, perguntando ao
paciente se o sintoma tinha melhorado, então, logo após a resposta
afirmativa do paciente, respondia que isto ocorrera por que o sintoma
era nervoso e não orgânico, e concluía com a sugestão: “e agora que você
sabe disso, o [sintoma] não pode mais incomodá-lo”. Nota-se aqui a
falta da elucidação da motivação psicogênica, mas a experiência
acumulada desde então tem provado que tal forma de terapia é eficaz,
sempre que a personalidade do indivíduo não esteja comprometida. Nos
sintomas conversivos a sugestão deveria ser dada de imediato, mas nas
outras formas de distúrbio, a sugestão deve ter um período de incubação
(latência) para dar resultados satisfatórios, particularmente nos
sintomas rebeldes (o médico deve definir um período ou uma circunstância
em que a cura se concluirá). Finalmente, a sugestão deve ser dada com
segurança, uma vez que qualquer indício de dúvida será percebido pelo
paciente hipnotizado, que explorará desfavorável mente este ponto [14].
Entretanto, se o paciente apresentava transe sonambúlico, a terapia
regressiva estava indicada, ou seja, a ação do hipnotista deveria
conduzir seu paciente ao esclarecimento da origem dos seus sintomas,
fazendo emergir memórias reprimidas associadas ao mesmo. Pedia-se ao
paciente para recordar sob hipnose as lembranças que ele recalcara, e
como estas memórias eram protegidas pela amnésia pós-hipnótica (o
recalque), dizia-se ao paciente para lembrar-se delas ao sair do transe.
Esta recordação esclarecia a causa (motivacional) dos sintomas (fator
simbólico), ao mesmo tempo que se abreagia as emoções represadas (fator
energético) junto com a lembrança. Esta “psicocatarse” geralmente curava
o indivíduo, exceto se a sua personalidade estivesse seriamente
comprometida. Freud concluía dizendo ainda a fórmula: “e agora que você
sabe disso, o sintoma não pode mais incomodá-lo”.
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A existência de memórias reprimidas como suposto fator patogênico na
gênese da histeria foi compartilhada por Freud e seu mentor, Joseph
Breuer, por algum tempo, resultando numa prolífica colaboração [4]. Esta
foi a origem da teoria do trauma, que já no seu início gerou uma
controvérsia entre estes dois médicos quanto à sua origem, mesmo quando
os princípios da primeira versão da psicodinâmica (o recalque como
defesa da angústia; o sintoma como retorno do recalcado) já haviam sido
esboçados por ambos no célebre trabalho sobre a histeria [4]. Freud
esboçava que a lembrança traumática da histeria devia-se a uma
experiência vivenciada na infância sob um afeto negativo muito intenso,
enquanto Breuer defendia que isto dependia de estados hipnóticos
espontâneos e não necessariamente de uma experiência afetivamente
traumática. A teoria de Breuer nunca deixou de existir, e ainda hoje é
uma escola hipnológica, mas Freud evoluiria da teoria do trauma infantil
como determinante nas neuroses para a sexualidade infantil e o complexo
de Édipo, elaborando uma nova teoria das neuroses e estendendo sua nova
versão da psicanálise para além do âmbito médico e terapêutico.
Após emancipar-se intelectualmente de Breuer, Freud procurou separar
sua doutrina dos conceitos de Pierre Janet, cuja doutrina está presente
na sua fase de colaboração com Breuer (“dissociação da consciência”,
“automatismos mentais”, “abaissement du niveau mental”, “double
conscience”, etc). A diferença essencial entre as teorias de Janet e de
Freud era que este não admitia que a histeria fosse uma deficiência da
capacidade de integração psíquica das experiências pessoais, mas uma
defesa contra um conflito entre uma pulsão instintiva e uma censura
convencionalmente estabelecida pela sociedade e educação. Também o
método psicocatártico de Breuer e Freud, tinha semelhanças com o método
de reassociação de Pierre Janet, cabendo a este a anterioridade do
método. Janet acusava Freud de ter transformado “uma observação clínica e
um procedimento terapêutico de indicações precisas e limitadas”, em um
“enorme sistema de filosofia médica”, a seu ver desnecessário e pedante
[17]
Freud e a teoria da sugestão
Na época em que Freud iniciou sua clínica, a hipnose era a única
forma de psicoterapia conhecida, e utilizada para tratamento psíquico de
qualquer doença, anímica ou orgânica, por meios psíquicos, e não apenas
o tratamento de doenças psíquicas [8]. Dominava a sugestão hipnótica
como instrumento psicoterapeutico, mas Freud não achava a teoria da
sugestão um conceito seguro, pois, na prática, a teoria decepcionava:
“enquanto (Bernheim) explica mediante a sugestão todos os fenômenos do
hipnotismo, a própria sugestão permanece inteiramente inexplicada e é
obscurecida por uma demonstração que não necessita de explicação” [12].
Freud, que foi a Nancy aprender a técnica de Bernheim, explicava que
este chamava “sugestão” a “toda influência psíquica eficaz de uma pessoa
sobre outra”, e “sugerir” ao uso de “todos os meios possíveis para
influir psiquicamente sobre alguém” [13]. Ele criticava Bernheim por
dizer que “tudo se explica pela sugestão”, enquanto a sugestão era um
conceito que se explicava somente por si mesmo.
Freud, que também foi discípulo de Charcot, e neurologista como seu
mestre, não aceitava a universalidade da teoria da sugestionabilidade de
Bernheim, sendo taxativo ao afirmar que na hipnose outros fenômenos
nervosos estão presentes, além da sugestionabilidade. Com isso ele
defendia abertamente Charcot,
e acrescentava estar
convencido que “os fenômenos histéricos são regidos por leis
(neurológicas)”, e que os prin-cipais aspectos da histeria “não são
originários de sugestões” [12], como supunha Bernheim. Se isto fosse
verdade, como explicar a universalidade dos fenômenos básicos do
histerismo, que são os mesmos observados em todas as épocas e países? E
até mesmo o
transfertque muitos achavam ser um fenômeno
sugestivo, Freud considerava como sendo um fenômeno autêntico derivado
de uma acentuada polarização da sensibilidade nervosa no histerismo
[12]. “Em sua essência, a sintomatologia da histeria é real e objetiva,
não sendo forjada pela sugestão por parte do investigador. Isto não
significa negar que o mecanismo da histeria seja psíquico, mas não se
trata de efeito de sugestão (involuntária) por parte do médico” [6].
Este mecanismo psíquico, e não a sugestão, já era antevisto por Freud, e
suas investigaç
ões a esse respeito o levaria a descobrir, junto com Breuer, a psicodinãmica da neurose histérica (4).
Freud prossegue sua crítica ao reducionismo de Bernheim citando a
hiperexcitabilidade muscular como um autêntico fenômeno neurológico da
hipnose, incapaz de ser simulado ou produzido por sugestão, conforme já
havia demonstrado Charcot [12]. Também concordava com Preyer e
Binswanger que afirmavam poder a hipnose ser induzida por via psíquica
ou por via fisiológica (fixação prolongada do olhar, persistência de um
som monótono, imobilidade forçada dos animais, etc [12], e citava ainda o
fato, bem conhecido dos que praticam a hipnose, que neste estado há uma
tendência do sistema muscular à catalepsia, fenômeno de natureza
fisiológica, e não psicológica [12].
Ele acreditava haver uma explicação psicodinãmica para a sugestão, e
distinguia uma sugestão verbal ou direta, nos moldes de Bernheim, e uma
sugestão somática ou indireta, que, embora ele não declare, coincide
claramente com a opinião de Charcot sobre a gênese da histeria
traumática. Senão vejamos: Freud dizia que um estímulo somático é
um
meio não verbal para produzir uma auto-sugestão, segundo o estado
psíquico em que a pessoa se encontra, e exemplificava isto como a causa
das paralisias histéricas segundo a idéia que o sujeito fazia de um
trauma banal, exagerando interiormente sua gravidade (esta idéia era
compartilhada com Breuer). Isto se evidenciava ainda mais quando se
constatava que as paralisias histéricas não afetava a
inervação real dos músculos, mas a parte do corpo
segundo a idéia que
o/a histérico(a) fazia do que seria uma paralisia (realidade psíquica
versus realidade em si). Portanto, Freud acreditava que esta tendência
para autosugestões inconscientes, geradas por acontecimentos externos,
era a base da psicogênese da histeria, e não a sugestionabilidade de
Bernheim. Ora, esta era uma idéia de Charcot, compartilhada também por
Breuer, e seria o evento inaugural para a psicodinâmica Freudiana. Freud
jamais deixaria de reconhecer este débito para com Charcot, mesmo
distanciando-se posteriormente de suas idéias embora, talvez, jamais
tenha deixado de pensar nelas.
Freud revisaria esta teoria uma vez mais, explicando o histerismo
como um estado em que idéias antitéticas reprimidas emergem como espécie
de entes autônomos por ocasião de tensão e angústia, apoderando-se da
mente e do corpo do paciente, como se fossem demônios [14]. Explicava
assim os delírios histerodemonopáticos das religiosas enclausuradas, nas
famosas epidemias de possessão na Idade Média e no século XVII,
delírios onde blasfêmias vi-olentas, obscenidades e linguagem erótica,
eram proferidas justamente por aquelas pessoas reprimidas sob rigorosa
moral religiosa. Charcot já havia observado isto, e chamava a atenção
para o fato de serem justamente as pessoas mais educadas e bem
comportadas que mais sofrem ataques histéricos e que nestes ataques dão
vazão a todo tipo de rebeldia, má conduta, ataques verbais, etc,
liberando tudo aquilo que são obrigadas a reprimirem. Freud, a partir
disto, ampliou o conceito da crise histérica como uma forma de descarga
nervosa contra o excesso de tensão (angústia) acumulada [4]. Este foi
outro débito para com Charcot.
Notamos, portanto, que a teoria do recalque já estava em estado
embrionário nos experimentos de Freud com a hipnose, e foi esta obscura
ciência, a magia negra da medicina, com ele gostava de chama-la, a mãe e
nutriz da jovem psicanálise. Mas esta mãe, que julgava-se morta após o
parto desta criança Edípica, voltava para assombrar o zeloso pai de vez
em quando, obsedando alguns de seus discípulos como Ferenczi, que ousou
declarar sua paixão pela hipnose ao mestre. O que ele recalcou para
edificar sua nova e complexa doutrina, insistia em retornar. A maioria
dos seguidores de Freud, em sua época, tinha sido praticante do
hipnotismo, e continuava a praticar a “Arx Nigra”
longe do
olhar do mestre, sempre que a ocasião o pedia. E o próprio Freud, no
final de sua jornada, finalmente admitiu que “talvez o ouro puro da
análise esteja ligado ao metal mais básico da sugestão” [16].
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