Por José Henrique P. Silva

In: FREUD, Sigmund. Obras Psicológicas Completas: edição standard
brasileira. Volume I – Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços
Inéditos (1886-1899), pág. 155-170.
Este artigo veio à luz quase exatamente na mesma época da
“Comunicação Preliminar” de Breuer e Freud, e serve como uma ligação
entre seus escritos sobre hipnotismo e aqueles que abordam a histeria,
assunto pelo qual Freud começava a se interessar.
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Neste artigo Freud traz a público um caso isolado de cura pela
sugestão hipnótica onde foi possível individualizar o mecanismo psíquico
básico do distúrbio. Tratava-se de uma mãe que era incapaz de amamentar
seu bebê recém-nascido.
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A jovem senhora tinha entre 20 e 30 anos e Freud a conhecia desde a
infância. Sua tranqüilidade dificultava que alguém a considerasse
neurótica, daí Freud classificá-la como uma histérique d’occasion. Vamos
ao caso.
Antes, uma observação. O irmão sofreu de uma neurastenia típica do
início da idade adulta que arruinou sua carreira. Ele enfrentara, na
puberdade, dificuldades sexuais próprias da idade; segue-se uma
sobrecarga de trabalho, como estudante; e sofre um ataque de gonorréia e
constipação. Esta, com o tempo, é substituída por uma pressão
intracraniana, depressão e incapacidade para o trabalho. Torna-se mais
ensimesmado até se tornar um tormento para a família. Fica aberta,
então, a possibilidade de haver uma disposição hereditária para a
neurose.
A paciente estava se preparando para a amamentação de seu primeiro
filho mas, houve pouca produção de leite e surgiam dores quando da
amamentação. Logo vieram a perda de apetite e a insônia. Após 15 dias
abandonou a tentativa e recorreu a uma ama-de-leite. Após isso, os
sintomas desapareceram.
Três anos depois nasceu o segundo bebê, e os esforços da mãe para
amamentação eram menos sucedidos ainda. Além de tudo ela passava a
vomitar tudo o que comia. Seus médicos, entre os quais Breuer, só lhe
pediram mais um esforço: a sugestão hipnótica. Foi aí que Freud foi
apresentado profissionalmente à paciente.
Foi feita a hipnose e as sugestões foram no sentido de contestar
todos os temores e os sentimentos em que esses temores se baseavam.
Durante cerca de doze horas os problemas desapareceram. Na segunda
hipnose houve mais energia e confiança, e foi sugerido que a paciente se
zangasse com a família por estar com fome. Ela agiu dessa forma e
passou a melhorar significativamente e amamentou a criança por 8 meses.
Depois, teve o terceiro filho e o processo se repetiu, com sucesso.
É quando Freud começa a se perguntar: qual teria sido o mecanismo
psíquico do distúrbio da paciente que foi removido pela sugestão?
Existem determinadas ideias que têm um afeto de expectativa que
lhes está vinculado. São de dois tipos: ideias de eu fazer isto ou
aquilo – o que denominamos intenções – e ideias de isto ou aquilo me
acontecer – são as expectativas propriamente ditas. O afeto vinculado a
tais ideias depende de dois fatores: primeiro, o grau de importância que
o resultado tem para mim; segundo, o grau de incerteza inerente à
expectativa desse resultado. A incerteza subjetiva, a
contra-expectativa, é em si representada por um conjunto de ideias ao
qual darei o nome de “ideias antitéticas aflitivas” (p. 163).
No caso de uma intenção, essas ideias antitéticas se passam
assim: “não vou conseguir executar minha intenção, porque isto ou aquilo
é demasiado difícil para mim, e eu sou incapaz de fazê-lo; sei, também,
que algumas outras pessoas igualmente fracassaram em situação
semelhante”.
O outro caso, o da expectativa: a contra-expectativa consiste em
enumerar todas as coisas que talvez possam me acontecer, diferentes das
que eu desejo. Mas, voltando às intenções, como é que uma pessoa, com
vida ideativa sadia, lida com ideias antitéticas que se opõem a uma
intenção? Com a autoconfiança da saúde, ela as reprime e inibe, e na
medida do possível, as exclui de suas associações de pensamentos. E
quando há uma neurose presente?
Temos de supor a presença primária de uma tendência à depressão e
à diminuição da autoconfiança, tal como as encontramos muito
desenvolvidas e individualizadas na melancolia. Nas neuroses, pois, uma
grande atenção é dedicada [pelo paciente] às ideias antitéticas que se
opõem às intenções (p. 163).
Quando essa intensificação das ideias antitéticas se
relaciona com as “expectativas”, então, o feito se manifesta num quadro
mental difusamente pessimista. Quando a relação é com as “intenções”,
ela origina as perturbações que se agrupam no que se conhece como folie
de doute, marcada pela descrença na capacidade pessoal. Nesse ponto, as
duas principais neuroses se comportam de modo distinto: na neurastenia,
a ideia antitética, patologicamente intensificada, combina-se com
a ideia volitiva num único ato da consciência; ela exerce uma subtração
na ideia volitiva e causa a fraqueza da vontade (p. 164).
Na histeria, o processo difere do anterior,
[em primeiro lugar] em consonância com a tendência à dissociação
da consciência na histeria, a ideia antitética conflitiva, que parece
estar inibida, é afastada da associação com a intenção e continua a
existir como ideia desconectada, muitas vezes inconscientemente para o
próprio paciente. [Em segundo lugar] é extremamente característica da
histeria que, quando chega o momento de se pôr em execução a intenção, a
ideia antitética inibida consegue atualizar-se através da inervação do
corpo, com a mesma facilidade com que o faz, em circunstâncias normais,
uma ideia volitiva. A ideia antitética se estabelece, por assim dizer,
como uma “contravontade”, ao passo que o paciente, surpreso, apercebe-se
de que tem uma vontade que é resoluta, porém impotente. Talvez,
conforme já disse, estes dois fatores, no fundo, sejam um só: pode ser
que a ideia antitética apenas seja capaz de se impor porque não inibe a
sua combinação com a intenção, da forma como a intenção é inibida por
ela (p. 164).
Ora, segundo Freud, se a mãe fosse neurastênica sua conduta
seria a de sentir um temor consciente da tarefa que lhe competia, teria
se preocupado com os vários acidentes e perigos, e teria amamentado sem
dificuldades, ou então (se a ideia antitética dominasse), teria
abandonado seu encargo por se sentir receosa. Se fosse histérica seria o
contrário.
Pode não estar consciente do seu receio, estar bastante decidida a
levar a cabo sua intenção e passar a executá-la sem hesitação. Aí,
porém, comporta-se como se fosse sua vontade não amamentar a criança em
absoluto. Ademais, essa vontade desperta nela todos os sintomas
subjetivos que uma simuladora apresentaria como desculpa para não
amamentar seu filho; perda do apetite, aversão à comida, dores quando a
criança é posta a mamar. E, como a contravontade exerce sobre o corpo um
controle maior do que a simulação consciente, também produz no aparelho
digestivo uma série de sinais objetivos que a simulação seria incapaz
de engendrar. Aqui, em contraste com a fraqueza da vontade mostrada na
neurastenia, temos uma perversão da vontade (p. 165).
Assim, Freud classifica sua paciente como uma
hystérique d’occasion.
Ou seja, ela era capaz de produzir uma série de sintomas como um
mecanismo característico da histeria. A causa fortuita era o estado de
excitação da paciente antes do primeiro parto ou a sua exaustão após o
mesmo.
Freud ainda menciona outro caso, também de uma paciente histérica que
apresentava um “ruído particular”, um tique, que sempre se intrometia
em suas conversas, um estalo da língua, que se apresentava a muito
tempo. Recordou, sob hipnose, que iniciou quando sua filha mais nova
esteve muito doente, com convulsões.
Quando, certa vez, ela adormeceu, a paciente sentou à beira da cama e
pensou que teria que ficar absolutamente quieta para não acordá-la,
depois de tantos espasmos e convulsões. Foi quando ocorreu o primeiro
estalo. Dias depois, quando de uma tempestade, um raio atingiu uma
árvore e o cocheiro teve que parar os cavalos abruptamente. Ela pensou
novamente que teria que ficar quieta para não assustar ainda mais os
cavalos. Outro estalo veio, e não pararam mais. Assim,
a mãe, exausta com suas angústias e dúvidas acerca de suas
tarefas de cuidar da criança enferma, tomou a decisão de não deixar que
sequer um som saísse de seus lábios, com receio de perturbar o sono da
filhinha, o qual tinha custado tanto a vir. Mas, no seu estado de
exaustão, mostrou-se mais forte a concomitante ideia antitética de que
ela, não obstante, pudesse fazer um ruído; e essa ideia teve acesso à
inervação da língua, que sua decisão de manter-se em silêncio talvez
pudesse ter-se esquecido de inibir, irrompeu no fechamento dos lábios e
produziu um ruído que daí em diante permaneceu fixado (p. 167).
Mas, como sucede a ideia antitética adquirir a supremacia em
consequência da exaustão geral? Freud diz que a exaustão é apenas
parcial, pois o que está exausto são os elementos do sistema nervoso que
formam o fundamento material das ideias associadas com a consciência
primária; as ideias que estão excluídas dessa cadeia associativa (do ego
normal), as ideias inibidas e suprimidas, não estão exaustas, e
predominam no momento da disposição para a histeria. Assim,
se atentarmos cuidadosamente para o fato de que são as ideias
antitéticas aflitivas (inibidas e rechaçadas pela consciência normal)
que se impõem num primeiro plano, no momento para a disposição para a
histeria, e têm acesso à inervação somática, então teremos a solução
para compreender também a peculiaridade dos delírios dos ataques
histéricos (…). São os grupos de ideias recalcadas – laboriosamente
recalcadas – que entram em ação nesses casos, pela operação de uma
espécie de contravontade, quando a pessoa cai vítima da exaustão
histérica (p. 168).
Essa emergência de uma contravontade é predominantemente
responsável pela característica demoníaca tão frequentemente mostrada
pela histeria – isto é, a característica de os pacientes serem incapazes
de fazer alguma coisa precisamente quando e onde mais ardentemente
desejam fazê-la; de fazerem justamente o oposto daquilo que lhes foi
solicitado; e de serem obrigados a cobrir de maus-tratos e suspeitas
tudo o que mais valorizam. A perversidade de caráter que os histéricos
mostram, sua ânsia de fazerem a coisa errada, de parecerem doentes
quando mais necessitam estar bem (…) esses pacientes se tornam vítimas
desamparadas de suas ideias antitéticas (p. 168-9).
Mas, Freud se questiona, o que acontece às intenções inibidas em relação à vida ideativa normal?
Poderíamos ser tentados a responder que elas simplesmente não
existem. O estudo da histeria mostra que, não obstante, elas realmente
existem, ou seja, que é mantida a modificação física a elas
correspondente e que elas são armazenadas e levam a vida insuspeitada
numa espécie de reino das sombras , até emergirem como maus espíritos e
assumirem o controle do corpo, que, geralmente, está sob as ordens da
predominante consciência do ego (p. 169).